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PARTICIPAÇÃO DO RÁDIO NO
COTIDIANO DA SOCIEDADE BRASILEIRA (1923-1960)
Lia Calabre
No apagar das luzes do século XX, podemos dizer
que este foi o tempo da revolução das formas
de comunicação à distância. Muitos
dirão que é o tempo da aceleração
das descobertas tecnológicas em todos os setores
do conhecimento humano. Sem dúvida, eles têm
razão. Entretanto, sem os rápidos meios de
comunicação estas descobertas ficariam restritas
a pequenos grupos. A "imediaticidade" dos acontecimentos
é diretamente proporcional a da sua divulgação
para o mundo.
Essa história de rapidez de comunicação
tem início com o surgimento da radiodifusão.
No caso brasileiro, a primeira estação de
rádio iniciou suas atividades em 1923. O rádio
ao longo de seus mais de 70 anos de história no Brasil
cumpriu papéis diversos, atendeu a interesses variados,
adaptou-se às mudanças dos tempos e hoje alcança
a marca de mais de 115 milhões de ouvintes contra
uns 85 milhões de telespectadores e no máximo
8 milhões de leitores de jornais e revistas1. Apesar
de sua larga participação na construção
de uma moderna sociedade de massa no Brasil, o rádio
não tem sido visto como um campo de estudos promissor
na área de Ciências Humanas, sua importância
vem sendo muitas vezes eclipsada por uma concorrente poderosa:
a televisão.
É importante ressaltar que a transmissão
televisiva brasileira teve início em 1950, porém
somente alcançou um número significativo de
aparelhos receptores na década de 60. Ou seja, entre
os anos 20 e os 60 do século XX o rádio foi
o principal veículo de comunicação
de massa do Brasil. Este artigo vai abordar de forma sintética
alguns dos principais aspectos do rádio brasileiro
nesse período. Seguindo a mesma dinâmica que
se instaurou na maioria dos países do mundo ocidental,
estes foram anos de mudanças profundas nas estruturas
sociais, culturais, econômicas e políticas
da sociedade brasileira. Mudanças das quais o rádio
participou ora cumprindo papéis secundários
e ora cumprindo papéis fundamentais.
O rádio fez sua primeira aparição
pública e oficial no Brasil, em 1922, na Exposição
Nacional, preparada para os festejos do Centenário
de Independência Brasileira2. Como parte da solenidade
de inauguração ocorreu a transmissão
do discurso do Presidente da República Epitácio
Pessoa realizado em um dos pavilhões da Exposição.
Após o discurso foi transmitida a ópera "O
Guarany", de Carlos Gomes, diretamente do Teatro Municipal.
O sucesso e a repercussão das primeiras transmissões
na imprensa escrita da época, resultaram, logo no
ano seguinte, no estabelecimento, no Rio de Janeiro, da
primeira emissora de rádio brasileira, a Rádio
Sociedade do Rio de Janeiro, seguida por outras em diversas
partes do país.
O crescimento do rádio na sua primeira década
de existência no Brasil se deu de forma lenta. A legislação
brasileira não permitia a veiculação
de textos comerciais o que dificultava a sobrevivência
financeira das Rádio-Sociedades. Bem verdade que
tal fato não impedia que as emissoras mesmo não
produzindo intervalos comerciais, tivessem seus programas
patrocinados por anunciantes específicos cujos produtos
eram recomendados ao público ao longo do programa.
Nos primeiros anos o alcance do rádio era pequeno,
pois o preço dos aparelhos receptores era alto, tornando-os
inacessíveis a grande parte da população.
No início da década de 1930, a situação
havia mudado o rádio se tornara um veículo
mais popular. Em São Paulo (que oferecia os maiores
salários do país) um aparelho de rádio
custava em torno de 80$000 e o salário médio
de uma família de trabalhadores era de 500$000 por
mês3. Em março de 1932, através do Decreto
Lei n° 21.111, o governo regulamentou e liberou a irradiação
da propaganda comercial pelo rádio, reiterando que
considerava a radiodifusão como um setor de interesse
nacional com de finalidades educacionais4.
Ainda em 1932, no mês de maio, o rádio dava
amostras de sua capacidade de mobilização
política. A cidade de São Paulo exigia a deposição
do então Presidente Getúlio Vargas, as rádios
paulistas, em especial a rádio Record se transformavam
em poderosas armas. Em julho, teve início o movimento
que ficou conhecido como a Revolução Constitucionalista,
que tinha como principal exigência a convocação
de eleições para a formação
de uma Assembléia Constituinte: o país necessitava
de uma nova Constituição. A cidade logo foi
cercada pelas forças federais, isolada, utilizou
as emissoras de rádio para divulgar os acontecimentos
a outras partes do país. Em outubro São Paulo
entregava as armas. O rádio saiu do conflito revigorado
por sua destacada atuação. Alguns profissionais
do setor, como o locutor César Ladeira, se tornaram
conhecidos em âmbito nacional.
Ao longo da década de 1930 o rádio foi se
mostrando um veículo de publicidade economicamente
rentável. A Legislação promulgada em
1932 oferecia soluções para o problema da
sobrevivência financeira das emissoras, ao mesmo tempo
que garantia ao Estado uma hora diária da programação
em todo o território nacional para a transmissão
do programa oficial do governo. O Programa Nacional previsto
por Lei em 1932, somente alcançou plenamente os objetivos
esperados em 1939 com a criação da Hora do
Brasil. Através desse programa o governo pretendia
personalizar a relação política com
cada cidadão5 sem que necessitasse montar um sistema
de emissoras próprio. Para atrair o publico ouvinte
o Departamento de Imprensa e Propaganda-DIP convidava artistas
famosos para se apresentarem no programa Hora do Brasil
que era formado por quadros de notícias, de caráter
geral, entretenimento e informes políticos.
Em 1936 foi inaugurada a Rádio Nacional do Rio de
Janeiro considerada um marco na história do rádio
brasileiro. Nos seus quatro primeiro anos de existência
a Nacional cresceu passou a disputar o primeiro lugar de
audiência6. Em 1940, o grupo de empresas ao qual pertencia
a Rádio Nacional foi incorporado ao patrimônio
do governo e a emissora passou para o controle do Estado.
Diferentemente do tratamento dispensado a outras emissoras
estatais a Rádio Nacional continuou a ser administrada
como uma empresa privada, sendo sustentada financeiramente
pelos recursos oriundos da venda de publicidade. Entre os
anos de 1940 e 1946 a Rádio Nacional tornou-se uma
campeã de audiência e captadora de altos investimentos
publicitários, como foi o caso da chegada da Coca-cola
ao mercado brasileiro - a empresa investiu uma quantia significativa
na época para colocar no ar Um milhão de melodias
um programa criado exclusivamente para o lançamento
do produto.
Na década de 40 as empresas multinacionais passam
a ter no rádio um aliado para sua entrada no mercado
brasileiro - como já vinha ocorrendo em outros países
das Américas. Em 1941, era lançada na Rádio
Nacional a primeira radionovela no Brasil: Em busca da Felicidade.
Segundo o sociólogo brasileiro Renato Ortiz as radionovelas
eram utilizadas nos Estados Unidos e em alguns países
da América Latina como estratégia para o aumento
na venda de produtos de higiene e de limpeza7. Em busca
da felicidade era um original cubano de Leandro Blanco adaptado
por Gilberto Martins a pedido da Standart Propaganda, que
além de patrocinar o programa escolheu o horário
matinal para seu lançamento. A experiência
parecia ousada, o horário escolhido era de baixa
audiência, entretanto o patrocinador criou uma estratégia
para avaliar a receptividade do novo gênero oferecendo
um brinde a cada ouvinte que enviasse um rótulo do
creme dental Colgate. Logo no primeiro mês de promoção
chegaram 48.000 pedidos comprovando a eficácia comercial
da nova programação. Com o sucesso do gênero
logo surgem novas radionovelas em outras faixas horários.
A Nacional se transformou em uma verdadeira fábrica
de ilusões, suas novelas marcaram época, forjaram
hábitos e atitudes, despertaram polêmicas e
fizeram muito sucesso junto ao público ouvinte8.
Em 1942 a Rádio Nacional inaugurou a primeira emissora
de ondas curtas do país passando a transmitir seus
programas para todo o território nacional, o que
a torna uma estação ainda mais atrativa para
os patrocinadores. A qualidade técnica dos programas
e a contratação de profissionais altamente
qualificados garantiu a Nacional altíssimos índices
de audiência e transformaram a emissora em um modelo
a ser seguido. Dois setores garantiam o sucesso da emissora
em todo o território nacional: as radionovelas e
os programas musicais.
O chamado período "áureo do rádio
brasileiro" concentra-se entre 1945 até os últimos
anos da década de 50. É importante ressaltar
que a expressão "áureo" está
relacionada a um conjunto de elementos de época,
não significa que o rádio daquele período
possuísse mais ouvintes do que o de hoje, até
mesmo porque tal fato seria estatisticamente impossível
pois a população brasileira atual é
numericamente muito superior à da época e
o número de aparelhos produzidos se multiplica velozmente
(principalmente pelo fenômeno dos aparelhos portáteis
de uso individual). Nos anos 40 e 50, o rádio possuía
glamour, era considerado como uma espécie de Hollywood
brasileira. Ser cantor ou ator de uma grande emissora carioca
ou paulista era o suficiente para que o artista conseguisse
sucesso em todo o país, obtivesse destaque na imprensa
escrita e até mesmo freqüentasse os meios políticos
(como um convidado especial ou mesmo como candidato a algum
cargo político). Normalmente as turnês nacionais
desses astros eram concorridíssimas, fazendo do maior
sonho de muitos jovens de todo o país, o de se tornar
artista de rádio - seria o correspondente ao desejo
de hoje, de se tornarem artistas de televisão9.
Com o fim da 2ª Guerra Mundial, as indústrias
de bens de consumo retomaram seu crescimento e alguns dos
produtos já disponíveis nos Estados Unidos
e na Europa desde o início do século começaram
a chegar ao Brasil. Entre os anos de 1945 e 1950 ocorreu
um processo de crescimento acelerado do setor radiofônico
como um todo. Assiste-se ao surgimento novas emissoras de
rádio, ao aperfeiçoamento dos equipamentos
(inclusive por determinação legal) e a ampliação
do número de estações de ondas curtas.
Este novo quadro, que se configurou no início dos
anos 50, criou uma situação de favorecimento
aos patrocinadores que possuíam um campo de atuação
nacional. Para uma melhor visualização do
processo vejamos os dados estatísticos de crescimento
das emissoras brasileiras:
ANO DE INAUGURAÇÃO QUANTIDADE
De 1923 a 1930 013
De 1931 a 1940 056
De 1941 a 1950 023
De 1951 a 1956 180
Sem especificação 009
TOTAL 481
IBGE - Anuário Estatístico do Brasil - 1958
Observando-se a tabela percebe-se que, entre os anos 40
e 50, as emissoras de rádio se multiplicavam rapidamente.
Para uma melhor percepção do alcance do rádio
junto ao conjunto da população brasileira
é importante destacar que, segundo os dados fornecidos
pelo recenseamento geral de 1960, no final da década
de 50 o país ainda possuía um índice
de 53,16% de sua população analfabeta, sendo
que 61,98% dos que não sabiam ler se encontrava entre
a população rural. Ou seja, mais da metade
da população do país tinha o rádio
como principal fonte de informação, de atualização,
como canal de ligação com o restante da sociedade.
O censo de 1960 nos fornece ainda dados quando às
principais características dos domicílios
particulares, nos quais detalha itens tais como o abastecimento
de energia elétrica e a posse de aparelhos eletrodomésticos
como rádio, geladeira e televisão, entre outros.
Totais domicílios Domicílios urbanos Domicílios
rurais
número % número % número %
Totais 13.497.823 6.350126 7.147.697
Iluminação elétrica 5.201.521 38,54
4.604.057 72,50 597.464 8,36
Rádio 4.776.300 35,38 3.912.238 61,61 864.062 12,09
Geladeira 1.570.924 11,09 1.479.299 15,82 91.625 1,29
Televisão 621.919 4,3 601.552 9,47 20.367 0,28
IBGE - VII Recenseamento Geral - 1960
A partir da tabela acima podemos observar a proximidade
entre os índices de fornecimento de energia elétrica
e o da existência de aparelhos de rádios nos
domicílios visitados - 38,54% do total com energia
elétrica e 35,38% do total com aparelhos de rádio.
Do mesmo modo se pode perceber que somente uma pequena parcela
da população tinha acesso aos aparelhos de
televisão - 4,6% do total -, sendo que se passarmos
para o quadro rural, o número domicílios que
possuíam de aparelhos de televisão é
inexpressivo. A proximidade entre os índices de energia
elétrica e de aparelhos de rádio nos permite
afirmar que ocorreu um processo de popularização
do rádio, fazendo dele quase que uma presença
obrigatória nos lares brasileiros, uma espécie
de utensílio indispensável. Os aparelhos de
rádio dos anos 40 e 50 ainda eram relativamente grandes,
principalmente se comparados ao tamanho dos atuais, e necessitam
de energia elétrica ou de geradores para funcionarem
- os aparelhos transistorizados somente invadiram efetivamente
o mercado nacional no final dos anos 60. As próprias
características físicas do aparelho de rádio
faziam com que ele ainda se mantivesse como um aparelho
de escuta coletiva, o que permitia uma possível troca
de impressões entre aqueles que se reuniam em torno
dele. É importante chamar a atenção
para o fato de que no período citado as famílias
brasileiras mantinham o hábito de se reunirem para
jantar, ouvir o rádio e conversarem sobre as notícias
do dia.
Um outro indicador da popularização, ou até
mesmo da banalização da presença do
rádio nos grandes centros urbanos, é o de
que em uma pesquisa do IBOPE (Instituto Brasileiro de Opinião
Pública) de 196010), sobre o potencial efetivo dos
mercados carioca e paulista para as utilidades domésticas
o rádio simplesmente foi excluído, foram apuradas
a existência de aparelhos de TV, colchões de
mola, máquinas de lavar roupa, refrigeradores, liqüidificadores
e enceradeiras, ou seja, como o rádio já era
presença constante nos lares brasileiros não
servia como indicador de renda. Da mesma forma que, ainda
em 1960, o IBOPE realizou uma pesquisa sobre a forma através
da qual os habitantes de Belo Horizonte conheceram a loja
Ducal e no resultado 73% dos entrevistados responderam que
tal conhecimento ocorreu através dos anúncios
de rádio, seguidos de 18% que o fizeram através
dos jornais e 12% pela televisão.
O rádio chegava ao final dos anos 50 e início
dos 60, consolidado em sua posição de meio
de comunicação de massa, como um elemento
fundamental na formação de hábitos
na sociedade brasileira. Dos anos 30 aos 60, o rádio
foi o meio através do qual as novidades tecnológicas,
os modismos culturais, as mudanças políticas,
as informações e o entretenimento chegavam
ao mesmo tempo aos mais distantes lugares do país,
permitindo uma intensa troca entre a modernidade e a tradição.
O rádio ajudou a criar novas práticas culturais
e de consumo por toda a sociedade brasileira.
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NOTAS
1 Antônio Francisco Magnoni et alii. "O Rádio
Digital avança no interior de São Paulo".
In: Nélia R. del Bianco e Sônia Virgínia
Moreira. Rádio no Brasil: tendências e perspectivas.
Rio de Janeiro: EDUERJ, 1999, p. 41.
2 Sobre o Centenário ver: Marly S. Motta. A Nação
fez cem anos. A questão Nacional no Centenário
da Independência. Rio de Janeiro: FVG, 1992.
3 Antônio Pedro Tota. A locomotiva no ar: rádio
e modernidade em São Paulo. 1924-1934. São
Paulo: Secretaria de Estado e Cultura/PW, 1990, p. 87.
4 Sobre a relação Estado/Rádio ver:
Lia Calabre de Azevedo. "O Estado na onda: reflexões
sobre o rádio e o poder nas décadas de 30
e 40". In: Cadernos de Memória Cultural. Vol.
1. N. 2. Rio de Janeiro: Museu da República.
5 Alcir Lenharo. Sacralização da política.
Campinas: Papirus, 1986, p. 42.
6 Sobre a Rádio Nacional ver: Luiz Carlos Saroldi
e Sônia Virgínia Moreira. Rádio Nacional:
o Brasil em sintonia. Rio de Janeiro: FUNARTE, 1984.
7 Renato Ortiz. A moderna tradição brasileira
- Cultura Brasileira e Indústria cultural. São
Paulo: Brasiliense, 1988, p. 44 e 45.
8 Sobre as radionovelas da Rádio Nacional ver: Lia
Calabre de Azevedo. Na sintonia do tempo: Um leitura do
cotidiano através da produção ficcional
radiofônica. Niterói, Dissertação
de Mestrado, Universidade Federal Fluminense, 1996.
9 Sobre os Cantores do Rádio, ver: Alcir Lenharo.
Cantores do Rádio. Campinas: Ed. da UNICAMP, 1995;
e Miriam Goldfeder. Por trás das ondas da Rádio
Nacional. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1980.
10 IBOPE, Pesquisas Especiais, vol. 1-31, 1960.
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