- PAPO, CABEÇA PRÁ PENSAR -

MILTON PARRON

 
"O sujeito algemado apanhando
é uma coisa covarde"

ALMANAQUE: Uma maneira de se informar em tempo real.

Milton: Informação, prestação de serviço e entretenimento. O rádio nesse trinômio brinca bem. Tenho orgulho de estar inserido no momento em que houve a divisão de águas: o rádio informativo. Em meados da década de 1960.

Venho de uma escola que começou a redimensionar a idéia de que o rádio tem que falar para o Brasil. Era a época em que o Brasil não tinha estrada. Hoje você se comunica em um instante. Esse rádio perdeu a razão de ser. O problema daqui de São Paulo não interessa ao camarada de Curitiba ou de Porto Alegre. Você precisa fazer um rádio bem feito para o seu quarteirão.

Antes tinha meia dúzia de emissoras. As grandes do Rio: Mayrink, Nacional, Tupi. Em São Paulo, Record, Bandeirantes, Tupi. Tinha uma em Curitiba, Belo Horizonte, Recife. No interior de São Paulo todo o mundo era fanático pelos artistas cariocas. Porque não entrava São Paulo.

ALMANAQUE: Especializou-se em polícia?

Milton: Nunca me senti bem cobrindo polícia, e cobri quase que a vida inteira. Começo de carreira foi um inferno. Volta e meia estava proibido de entrar na delegacia, porque denunciava. “Estão batendo em um camarada.” Mesmo bandido, o sujeito algemado apanhando é uma coisa covarde.
O pai do Carlinhos jurava de pé junto que não era culpado: “Esse Adilson que prenderam está me acusando, nunca vi esse homem na minha vida.” Espero o tal do Adilson chegar: “No dia do seqüestro, a mãe tinha levado o menino ao dentista. Estava com um abscesso, não deu trabalho para vocês?” “Na primeira noite ele chorou muito. Compramos um remédio e melhorou.” “Você está mentindo. Ele nunca foi ao dentista, estou inventando essa história agora.” Aquele silêncio. “Não posso mais carregar isso dentro de mim. Não participei do seqüestro.” “Por que inventou essa história?” “Porque fui preso por um comando do exército. Disseram que eu era subversivo. Quando cheguei no quartel, já cheguei embaixo de pancadaria e vi que lá ia morrer mesmo. Então inventei uma história absurda para sair daquilo. Me mandaram entregar para esse delegado aqui.” “O delegado te ouviu?” “Não.”
O delegado vivaldino chamou a imprensa dizendo que tinha resolvido o problema, sem ouvir o cara. A idéia era matar esse Adílson. O pai ia morrer na prisão. “Eles disseram que não posso voltar atrás. Vou morrer se mudar a história. Não tenho como carregar esse negócio com o pai aqui do lado, chorando.”

Botaram no ar a gravação umas duas e meia da manhã. De manhã o delegado deu uma versão absurda e à tarde o governador já tinha demitido ele, o secretário de Segurança e todo o mundo. Guardei isso também.

ALMANAQUE: Você foi atrás desses acervos?

Milton: Comecei a trocar, igual figurinha. Sou amigo de um mundo de gente de sebo.

ALMANAQUE: Você põe no ar alguns programas praticamente inteiros.

Milton: A Bandeirantes tem um belíssimo acervo, que estava abandonado. É a história do rádio de São Paulo. Década de 1940. Me ofereci para salvar o que ainda é possível. Hoje estou nessa função. Tem coisas fantásticas. Quando a gente fala de programas de auditório, a primeira figura que surge é do César de Alencar. Tivemos grandes animadores. Paulo Gracindo. Aqui em São Paulo, o Jaime Moreira Filho, fazia a Hora do Pato. O último trabalho do Nelson de Oliveira, está vivo ainda e esquecido, foi na feira do automóvel do Anhembi.

ALMANAQUE: Walter Silva, o Zuza.

Milton: Randal Juliano.

ALMANAQUE: Como era quando você era garoto? O rádio enquanto divulgador de música, a importância do samba, da difusão da imagem do Brasil.

Milton: A década de 1940 conheço nem tanto pela literatura, mas pelo contato com as pessoas que trabalhei. Eu era muito próximo do Randal, Adoniran Barbosa, Armando Rosas, Raul Duarte, Oswaldo Moles.

Esse rádio não era apenas divulgador, foi o veículo que aproximou todos os povos que vivem no nosso país, todas as culturas. Transmitia as decisões do Rio, que demoravam para chegar no Amazonas. As preocupações eram diferentes. O povo queria saber a cotação do café. Era pelo rádio. Pela Voz do Brasil, um programa de prestação de serviço. Como o repórter Esso. O Brasil parava cada vez que entrava no ar.

Relacionado com a música, você não tinha outro meio. Serviu de ponte para transformar em ídolos cantores que se exibiam em circos ou cineminhas. Não apenas na divulgação da música, mas dos apresentadores. Esses camaradas tiveram uma importância na vida dos artistas que não se tem idéia. Quando um Blota Júnior rotula a Isaurinha Garcia de “A Personalíssima”; Ciro Monteiro, “O Rei da Voz”; Orlando Silva, o “Cantor das Multidões”, o programa de auditório ao vivo, aquela gritaria; o resto ficava por conta da imaginação de quem ouvia.

O rádio tinha esse poder. Aqueles camaradas em programas de auditório, enaltecendo o artista. Quando não tinha público, faziam como o Cauby Peixoto, que um tal de Di Veras pagou para meia dúzia rasgar a roupa dele no meio da rua. Foi o grande marketing. Talvez não tivesse chegado a ser Cauby, embora sendo extraordinário cantor.

ALMANAQUE: O rádio ainda é muito importante.

Milton: A instantaneidade com que você consegue colocar no ar.

ALMANAQUE: Se você ligar para a estação com programa ao vivo, entra no ar na hora. Conversa, bate-papo, troca idéia.

Milton: É um pouco o que fazia o Comandante Rolim, da TAM. O passageiro chega e tem um tapete na porta do avião. Você sente-se valorizado. O rádio valoriza o ouvinte, porque ouve seu nome no ar. Se pedir música, fizer reclamação. Trata-o com respeito. Torna-se solidário. “Na rua do fulano tem um buraco, não pode continuar.” Ele sente-se amparado.

O Moraes Sarmento mandava abraços para os ouvintes. O rádio tem aquilo que considero essencial, como um jogo de quebra-cabeça. Permite que você dê asas à imaginação. Você começa a sonhar: será que ele é gordo, magro?