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Rádio
por Fernando Vieira de Mello, filho
O rádio acorda o Brasil. Ele está presente
em 88,4% dos domicílios brasileiros. É através
das ondas do rádio que o cidadão traça
a jornada de seu dia-a-dia, escolhendo o trajeto para o
trabalho, ouvindo a previsão do tempo e recebendo
as notícias que afinal vão definir seu estado
de espírito. Estas emissões cobrem os 8.547.403,5
km² do território, por onde estão espalhadas
1.335 emissoras comerciais AM e outras 938 que operam em
FM. É um universo diversificado que atende a demanda
de milhares de ouvintes por informação, notícias
esporte, serviços, lazer, música, entretenimento
e mesmo fé, com vários campeões de
audiência. É um instrumento que fala para o
banqueiro da avenida Paulista, em São Paulo, para
o surfista de Ipanema, no Rio, para o seringueiro das florestas
do Acre, para o plantador de soja do Mato Grosso e para
o pecuarista gaúcho dos pampas. Esta audiência
global recebe uma programação das emissoras,
que têm uma característica fundamental: ser
informativa. O rádio no Brasil é isso: informa,
forma e educa o povo, ainda carente de um sistema educacional
que supra as necessidades de um país em desenvolvimento.
Os pesquisadores registram que a primeira emissão
radiofônica no Brasil ocorreu em 1922. Era 7 de setembro,
e se comemorava o centenário da Independência
do Brasil. A Westinghouse Eletric International Co. instalou
no alto do Corcovado, no Rio de Janeiro, juntamente com
a Companhia Telefônica Brasileira, uma estação
de 500 watts. O jornalista Walter Sampaio, autor do livro
Jornalismo Audiovisual (Editora Vozes, 1971), aponta, porém,
uma outra data de nascimento, 6 de abril de 1919, no Recife,
com a entrada em operação da Rádio
Clube de Pernambuco, fundada por Oscar Moreira Pinto. Mas
o que historiador nenhum contesta é que o rádio
pegou mesmo no Brasil somente a partir de 20 de abril de
1923, com a Rádio Sociedade do Rio de Janeiro. À
frente da estação, um ícone da história
da radiodifusão no Brasil: Roquete Pinto. Seus primeiros
passos buscavam o sonho de transmitir educação
e ensino ao povo brasileiro. Não é à
toa que a emissora foi instalada na Academia Brasileira
de Ciências!
No livro Raízes e Evolução do Rádio
e da Televisão (Feblan/RBS, 1979), escrito pelo pesquisador
Octávio Augusto Vampré, encontra-se a informação
de que foram instaladas na verdade, no Rio de Janeiro, em
1922, duas emissoras. A Westinghouse colocou seu transmissor
no Corcovado e a Western Eletric montou uma estação
na Praia Vermelha. "Foram adquiridas pelo governo federal,
pelo que se alcança a conclusão de que o rádio
no Brasil teve seus primeiros passos através de duas
estações estatais", informa Vampré.
Desde então, o poder tem procurado estar de mãos
dadas com o rádio. O presidente Getúlio Vargas
deu o tom em 1939, quando iniciou a produção
do programa A Hora do Brasil, hoje A Voz do Brasil, cuja
retransmissão ainda é obrigatória para
todas as estações de rádio do país.
A rede nacional não sossegou o ditador, que foi buscar
numa emissora privada o lastro de popularidade que tentava
conquistar incessantemente. Em 1940, a Rádio Nacional
foi incorporada ao patrimônio da união em novo
ato da ditadura do Estado Novo de Vargas. Com recursos abundantes
injetados pelo governo, a emissora montou uma programação
por onde desfilou um elenco de grandes artistas do rádio
e da canção daquela época. Getúlio
Vargas colocou a Rádio Nacional a seu serviço.
A história brasileira registra outro momento político
importante do rádio, que desta vez serviu à
democracia. O então governador do Rio Grande do Sul,
Leonel Brizola, em 1961, diante da renúncia de Jânio
Quadros da Presidência da República, formou
uma rede de emissoras de rádio para a transmissão
da Campanha da Legalidade, para assegurar a posse do vice-presidente
João Goulart, que se encontrava fora do país
naquele momento. A campanha venceu uma conspiração
militar e Jango assumiu o governo, após a aprovação
de uma emenda constitucional que instituiu o parlamentarismo
no Brasil em 2 de setembro de 1961.
Das 2.273 emissoras de rádio do Brasil, uma parcela
expressiva, mas de difícil mensuração,
pertence ou está ligada a grupos políticos.
Na Assembléia Nacional Constituinte de 1988, o então
presidente José Sarney acabou trocando a aprovação
de seu mandato, passando-o para cinco anos, ao dar a deputados
e senadores diversas concessões para operação
de novas emissoras de rádio.
O apego dos políticos ao instrumento mantém-se
vivo, ainda, com o horário eleitoral gratuito, no
qual as emissoras cedem espaço de sua programação
aos partidos para divulgação da plataforma
de seus candidatos a presidente, governador, prefeito, senador,
deputado federal, deputado estadual e vereador. A manutenção
deste privilégio une no legislativo brasileiro conservadores
e progressistas, que ano após ano mudam a forma,
o tempo e a distribuição do horário
entre os partidos políticos. Mas é unânime
entre eles a defesa pela permanência deste espaço,
apesar da crescente antipatia do eleitorado àqueles
programas de rádio e, também, de televisão.
Da Rádio Sociedade do Rio de Janeiro às 2.273
emissoras comerciais existentes hoje no Brasil, o veículo
assumiu um perfil diferenciado em relação
a vários países do primeiro mundo: ele é
competitivo. Quando alguém se depara com a verba
publicitária anual arrecadada pelo rádio no
Brasil, estranha por que tantos lutam tanto por tão
pouco. Os números do Mídia Dados 95, boletim
editado pelo Grupo de Mídia de São Paulo,
demonstram que a participação do veículo
no bolo publicitário não passou de míseros
5% desde o início da década de 90. Tentando
mudar esse estado de coisas, as grandes emissoras do Brasil,
com o advento do satélite, reeditam as antigas cadeias
nacionais, levando para estações do interior
do país uma programação mais qualificada.
Já as emissoras que não estão conectadas
a uma das nove redes atuantes no Brasil, oferecem uma programação
eclética que vai da música popular brasileira
ao rock, do radiojornalismo sério ao sensacionalismo
das histórias policiais.
Ninguém briga sozinho. Em cada nicho há pelo
menos duas emissoras raspando o pouco de receita que os
anunciantes reservam para o veículo. É um
cenário propício para a entrada na radiodifusão
de grupos religiosos. Conscientes da real força do
instrumento, os pastores estão no ar 24 horas por
dia, sem compromisso com a venda de anúncios. Afinal,
o faturamento advém da contribuição
de seus fiéis seguidores.
O futuro do rádio no Brasil vem ganhando uma nova
perspectiva, com a meta definida pelo governo federal de
democratizar o instrumento, atuando em várias frentes:
a abertura de cerca de 2 mil novas estações
de rádio, que serão distribuídas pelo
governo através do regime de concessão; o
fechamento das emissoras piratas, que operam no país
em número incalculável; e, finalmente, a entrada
no ar das chamadas rádios comunitárias, que
vão transmitir seus sinais em freqüência
única num raio nunca superior a 400 metros.
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