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O poder da imprensa
Informação: Folha de São Paulo - Opinião
- 19/04/2006
Carlos Heitor Cony
RIO DE JANEIRO - Desde que começaram a considerar
a imprensa como o quarto poder, passei a contestar a classificação,
achando que a imprensa nunca é poder -eventualmente
pode ser uma força, que não chega a ser um
poder.
Lendo jornais antigos, deparei com o editorial de um dos
órgãos mais famosos da imprensa brasileira,
que deixou história dentro de nossa história.
Inaugurava-se, no Rio, a avenida Central, hoje Rio Branco,
marco no urbanismo carioca e nacional, pois foi a primeira
tentativa de dar às cidades brasileiras um desenho
civilizado e moderno.
Realizaram-se festas monumentais para a inauguração
do maior acontecimento daquele tempo. Desfiles militares,
representações estrangeiras, iluminações
nunca vistas, comida farta e "o povo divorciado por
completo das festanças e pagodes oficiais".
Não apenas a festança e os pagodes oficiais
foram veementemente condenados. Condenada foi a própria
avenida: "Ontem, enquanto no espocar do champanhe festivo
a gente do governo inaugurava a avenida, centenas de famílias
abandonavam os lares tangidas pela febre demolidora do progresso.
O dinheiro do contribuinte foi esbanjado, foi desperdiçado
em indenizações vergonhosas, em que se abarrotou
a advocacia administrativa, distribuído em negociatas
e arranjos...".
O texto homicida e o tom indignado lembram o que hoje se
publica nas revistas e jornais, inclusive nos noticiários
da TV. A onda moralista mudou de nome devido à desmoralização
da moral. Tornou-se ética. E nada mais ético
do que a força da imprensa cobrando ética
de tudo e de todos.
O poder real não dá bola para essa força.
Vai em frente, esbanjando o dinheiro do contribuinte, distribuindo-o
em negociatas e arranjos.
O que foi dito contra a avenida Central foi repetido contra
Brasília e outras iniciativas que deram certo. É
repetido também agora, quando nada está dando
certo.
Onde está o poder da imprensa?
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