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Mais jornalismo e menos marketing
Informação: AESP - Associação
das Emissoras de Rádio e Televisão do Estado
de São Paulo - 30/01/2006
O Estado de São Paulo - Espaço Aberto
Carlos Alberto Di Franco
Campanhas milionárias, promessas surrealistas e
imagens produzidas fazem parte do marketing de alguns políticos.
Assiste-se, freqüentemente, a um show de efeitos especiais
capazes de seduzir o grande público, mas, no fundo,
vazio de conteúdo e carente de seriedade. O marketing,
ferramenta importante para a transmissão da verdade,
pode ser transformado em instrumento de mistificação.
Estamos assistindo à morte da política e ao
advento da era da inconsistência. Os programas eleitorais
vendem uma bela embalagem, mas, de fato, são paupérrimos
na discussão das idéias. Nós, jornalistas,
somos (ou deveríamos ser) o contraponto a essa tendência.
Cabe-nos a missão de rasgar a embalagem e desnudar
os candidatos. Só nós, estou certo, podemos
minorar os efeitos perniciosos de um espetáculo audiovisual
que, certamente, não contribui para o fortalecimento
de uma democracia verdadeira e amadurecida.
Por isso, uma cobertura de qualidade é, antes de
mais nada, uma questão de foco. É preciso
declarar guerra ao jornalismo declaratório e assumir,
efetivamente, a agenda do cidadão. Não basta
um painel dos candidatos, mas é preciso cobrir a
fundo as questões que influenciam o dia-a-dia das
pessoas. É importante fixar a atenção
não nos marqueteiros e em suas estratégias
de imagem, mas na consistência dos programas de governo.
O nosso papel é ouvir as pessoas, conhecer suas
queixas, identificar suas carências e cobrar soluções
dos candidatos. Não se pode permitir que as assessorias
de comunicação dos políticos definam
o que deve ou não ser coberto. O centro do debate
tem de ser o cidadão, as políticas públicas,
não mais o político, tampouco a própria
imprensa. Na prática, não obstante a teoria
da agenda-setting (Maxwell McCombs e Donald Shaw, formuladores
da hipótese, afirmam que o debate público
é determinado pelas pautas dos jornalistas), atribuir
à imprensa uma influência decisiva na determinação
da agenda do público, tal poder, de fato, passou
a ser exercido pelos políticos. O jornalismo de registro,
pobre e simplificador, repercute o Brasil oficial, mas oculta
a verdadeira dimensão do País real. Precisamos
fugir do espetáculo e fazer a opção
pela informação. Só assim, com equilíbrio
e didatismo, conseguiremos separar a notícia do lixo
declaratório.
Outros desvios éticos podem comprometer a qualidade
da cobertura eleitoral. Sobressai, entre eles, o perigoso
jornalismo de dossiê. Os riscos de instrumentalização
da imprensa são evidentes. Os protagonistas do teatro
político não medirão esforços
para fazer com que a mídia, à sua revelia,
destile veneno nos seus adversários. Por isso, é
preciso revalorizar, e muito, as clássicas perguntas
que devem ser feitas a qualquer repórter que cumpre
uma pauta investigativa: checou? Tem provas? A quem interessa
essa informação? Trata-se de eficiente terapia
no combate ao vírus da leviandade.
O esforço de isenção, no entanto, não
se confunde com a omissão. O leitor espera uma imprensa
combativa, disposta a exercer o seu intransferível
dever de denúncia. A sociedade quer um quadro claro,
talvez um bom infográfico, que lhe permita formar
um perfil dos candidatos: seus antecedentes, sua evolução
patrimonial, seu desempenho em cargos atuais e anteriores,
etc. Impõe-se, também, um bom levantamento
das promessas de campanha. É preciso mostrar os eventuais
descompassos entre o discurso e a realidade. Trata-se, no
fundo, de levar adiante um bom jornalismo de serviço.
Os políticos, pródigos em soluções
de palanque, não costumam perder o sono com o rotineiro
descumprimento da palavra empenhada. Afinal, para muitos
deles, infelizmente, a política é a arte do
engodo. Além disso, contam com a amnésia coletiva.
O jornalismo de qualidade deve assumir o papel de memória
da cidadania. Precisamos falar do futuro, dos projetos e
dos planos de governo. Mas precisamos também falar
do passado, das coerências e das ambigüidades.
Armação da imprensa. Distorção
da mídia. Patrulhamento de jornalista. Quantas vezes,
caro leitor, você registrou essas reações
nas páginas dos jornais? Inúmeras, estou certo.
Recentemente, um inconformado político se referiu
à imprensa que desencadeia a pressão popular
contra homens públicos aéticos, comparando-a,
com cinismo, à "ditadura militar". Tais
declarações, marca registrada de políticos
apanhados com a boca na botija, não nos devem preocupar.
Afinal, todos, independentemente do seu colorido ideológico,
procuram o bode expiatório para justificar seus deslizes.
A culpa é da imprensa! O grito é uma manifestação
de desprezo pela verdade.
Personalidades públicas, inúmeras, têm
procurado usar a mídia. Afirmam e depois, cinicamente,
desmentem o que afirmaram. Nós não podemos
ficar reféns desse jogo. Os meios de comunicação
existem para incomodar. Um jornalismo cor-de-rosa é
socialmente irrelevante. A imprensa, sem precipitação
e injustos prejulgamentos, tem o dever de desempenhar importante
papel na recuperação da ética na vida
pública. Nosso compromisso não é com
as celebridades, mas com a verdade, com a informação
bem apurada e com os leitores. E nada mais.
O Brasil está passando por uma profunda mudança
cultural. A corrupção, infelizmente, sempre
existirá. Mas uma coisa é a miséria
do homem; outra, totalmente diferente, é a indústria
da corrupção que está aí. Esta,
sem dúvida, deve e pode ser combatida com os instrumentos
de uma sociedade civilizada. Transparência nos negócios
públicos, ética e competência são
as principais demandas da sociedade. Memória e voto
consciente compõem a melhor receita para satisfazê-las.
Carlos Alberto Di Franco, diretor do Master em Jornalismo
para Editores e professor de Ética Jornalística,
é diretor para o Brasil de Mediacción - Consultores
em Direção Estratégica de Mídia
(Universidade de Navarra). E-mail: difranco@ceu.org.br
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