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ALMANAQUE BRASIL REVISTA Nº66
- Setembro de 2004
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INCRÍVEL ERA DO RÁDIO
O rádio criou mitos, imortalizou profissionais e
cativou ouvintes nos mais remotos cantos.
Integrou a nação. Mesmo depois da televisão,
assegura seu espaço: contra 38 milhões de
televisores,
temos hoje mais de 70 milhões de rádios. Sua
história inclui conquistas e lutas travadas com paixão,
presen ça de espírito e criatividade.
7 DE SETEMBRO DE 1922
Faz 82 anos. O País comemora o centenário
da Independência. Na capital da República,
o povo aguarda a inauguração da Exposição
Internacional do Rio de Janeiro. Corre boca a boca que uma
revolução está por vir: uma tal de
transmissão radiofônica. O presidente Epitácio
Pessoa dá início às festas. E fala
através de 80 alto-falantes espalhados pela área
da exposição. Lança o País nas
ondas do rádio.
No meio da multidão, um antropólogo atônito.
Ninguém por ali sabia ao certo como a novidade seria
usada. Roquette-Pinto vislumbrava: enfim, os milhões
de analfabetos do País teriam oportunidade de receber
informações que não conseguiam extrair
de livros e publicações periódicas.
Em abril de 1923, Roquette inaugura a primeira emissora
do País, a Rádio Sociedade do Rio de Janeiro.
Divulga ópera, música clássica, palestras.
Surgem similares. Nenhuma desperta interesse.
O cenário muda na década de 1930. Com o barateamento
dos aparelhos e uma legislação favorável
à publicidade, o rádio conquista o Brasil.
É o primeiro passo rumo à disseminação
do rádio; o início da indústria cultural
brasileira.
BRASILEIRO INVENTA RÁDIO
E ITALIANO LEVA A FAMA
O gaúcho Roberto Landell de Moura ordenou-se padre
em 1886, aos 27 anos. Mas não foi o sacerdócio
que lhe reservou lugar na História. Interessado em
ciências, este jesuíta iniciou, em 1892, experiências
com a transmissão de voz sem uso de cabos.
Em 1893, um ano antes do italiano Guglielmo Marconi, tido
como criador do rádio, Landell realizou demonstração
do invento em São Paulo. Transmitiu sua própria
fala da Avenida Paulista para o Alto de Santana, a 8 km.
E, segundo relatos, com melhor qualidade que o aparelho
de Marconi.
A imprensa fez alarde, mas o padre foi execrado. Chamaram-no
de louco, impostor, bruxo. Não teve apoio oficial
algum. Desiludido, abandonou os experimentos. Deixou para
trás as patentes do transmissor de sons (ondas hertzianas),
do telefone e do telégrafo sem fio. Dedicou-se ao
sacerdócio até morrer, aos 67 anos, em 1928,
na mesma Porto Alegre onde nasceu.
PROGRAMA É BATIZADO EM PLENO AR
Domingo, 14 de fevereiro de 1932. O locutor aciona o microfone
e anuncia, com voz impostada:
A Rádio Philips do Brasil, PRA-X, vai começar
a irradiar o Programa...
Silêncio no estúdio. Ninguém tinha
pensado num nome para a atração comandada
pelo pernambucano Ademar Casé.
... Casé. Programa Casé arremata o
speaker, para alívio geral.
O improviso não atrapalhou a trajetória de
um dos mais famosos programas de todos os tempos. O rádio
dava os primeiros passos, quase amador. Mas Casé
já sabia que a melhor aposta estava numa programação
popular. Mandava ao ar humorísticos, teatro, paródias,
histórias reais dramatizadas.
Nada de música erudita. O negócio era samba.
Acabou revelando Carmen Miranda, Sílvio Caldas, Francisco
Alves, Donga, Elizeth Cardoso, Noel Rosa.
Era a época dos programistas, primeiros profissionais
do rádio. Eles adquiriam tempo nas estações,
criavam programas e vendiam espaços para os anunciantes.
Redigiam, produziam, apresentavam. Faziam de tudo.
Com tino comercial aguçado, Casé criou, ao
lado do caricaturista e compositor Nássara, o primeiro
jingle brasileiro. Era um fado, composto especialmente para
o dono da Padaria Bragança:
Oh! Padeiro desta rua / Tenha sempre na lembrança
/ Não me traga outro pão / Que não
seja o pão Bragança.
ALÔ, BRASIL! NO AR,
UMA DAS CINCO GRANDES DO MUNDO
1936. O grupo do jornal A Noite entra para o ramo da radiodifusão.
Às 21 horas de 12 de setembro, um gongo soa três
vezes. Celso Guimarães anuncia:
Alô, alô, Brasil! Está no ar a Rádio
Nacional do Rio de Janeiro.
Ao fundo, ouve-se Luar do Sertão, de João
Pernambuco e Catulo da Paixão Cearense. Estréia
a primeira grande emissora do País, a Estação
das Multidões.
A estrutura era inédita. Programação
diversificada, transmissores potentes, estúdios bem
equipados, elenco de estrelas. Logo se destacou.
Em 1940, Vargas percebe que a emissora poderia ser eficiente
instrumento para a afirmação do Estado Novo.
Decreta sua encampação. A rádio não
deixa de brilhar. Grande parte dos ídolos da época
pertenciam a seu elenco fixo: Sílvio Caldas, Carlos
Galhardo, Vicente Celestino.
A Nacional manteve-se no topo até 1964. Com o golpe
militar, começava o declínio da emissora que
chegou a ser uma das cinco maiores do mundo.
Em julho de 2004 ela foi reinaugurada. Reforma, compra de
equipamentos modernos, novos estúdios. E não
podiam faltar as grandes estrelas. Depois de décadas,
Cauby Peixoto, Marlene, Jamelão e Emilinha Borba
estavam de volta ao antigo auditório da Praça
Mauá.
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