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Jornal: GAZETA DO POVO - Caderno
G
Domingo, 14 de julho de 2002
MÍDIA | Aparentemente
afastado do debate tecnológico atual, o rádio
está longe de ser superado
Conversa ao pé-de-ouvido
Relação entre emissoras e ouvintes é
mais intensa do que se pode imaginar
OMAR GODOY
Em tempos de internet, banda larga e DVD, pouco ouvimos
falar de um dos meios de comunicação
de massa mais importantes: o rádio. Aparentemente
afastada do debate tecnológico da atualidade,
essa poderosa mídia está longe de ser
superada. Seja para informar ou entreter, os receptores
de freqüência continuam sendo itens básicos
em qualquer lugar. Duvida? Pois saiba que, enquanto
você lê este texto, centenas de novas
emissoras oficiais, piratas, comunitárias e
virtuais iniciam suas atividades nos quatro cantos
do mundo.
"O rádio é
pouco falado hoje em dia porque já passou a
ser uma extensão de nossos sentidos. As pessoas
ouvem e não se dão conta", diz
o jornalista Jorge Cury, criador da agência
de notícias Central de Radiojornalismo (cujo
site www.radiojornalismo.com.br contém farto
material para pesquisa). Para ele, o meio ainda é
forte tanto no campo quanto na cidade. "O rádio
atinge lugares onde a televisão não
chega. É ouvido na calmaria das regiões
rurais e nos congestionamentos dos grandes centros
urbanos".
O rádio é a única
mídia eletrônica que acompanha o público
em qualquer situação, e apenas este
fato já o torna insubstituível. Mas
há quem atribua outra qualidade importante
ao meio. Para muitos, a experiência radiofônica
alimenta o imaginário. "O rádio
está mais próximo do livro do que a
televisão", arrisca-se Cury.
O produtor Ciro Ridal - conhecido
do público roqueiro de Curitiba por idealizar
projetos como Ciclojam e Todos os Caminhos do Rock
- compartilha da mesma idéia. De acordo com
ele, a tevê transmite seus conteúdos
de maneira extremamente "mastigada" para
os espectadores. Conseqüentemente, o público
perde sua capacidade reflexiva. Ou seja: ao obrigar
o ouvinte a criar imagens em sua cabeça, o
rádio desperta criatividade e o senso crítico.
Alheios às teorias de
recepção de informação,
os maníacos por rádio continuam fiéis
ao meio. Mesmo que seja apenas para ouvir meras canções
populares. "Adoro música. Levanto às
7 horas e fico ouvindo rádio até às
19. Aí entra a Voz do Brasil e eu paro para
ver a novela", revela a dona de casa Josete Bastos,
de 40 anos. Detalhe: ela só escuta a programação
da 98 FM.
Residente do bairro Alto Boqueirão,
Josete acompanha a emissora há 10 anos e foi
eleita, em 2001, a primeira Ouvinte do Mês da
estação. Já perdeu a conta de
quantas promoções participou, e se orgulha
de ter ganho um aparelho de som com CD oferecido pela
98. Fã número 1 da rádio (e da
dupla Zezé di Camargo e Luciano), ela só
deixa de ouvi-la durante as férias. "É
que a 98 não pega na praia de Canoas. Fico
morrendo de saudade da programação e
dos locutores", conta.
Se, na opinião de Josete,
o rádio é um companheiro de todas as
horas, para o arte finalista Cássio Silvério,
18, o meio respresenta um verdadeiro objetivo de vida.
Disposto a ser radialista, ele mudou-se de Foz do
Iguaçu para a capital paranaense a fim de ingressar
no mercado. Ainda não conseguiu, apesar de
ter feito um curso de locução no SESC
e aprendido a mexer em mesas de som. Agora, ele pretende
cursar Jornalismo.
Apesar de encontrar portas
fechadas em Curitiba, Cássio não se
arrependeu de sua escolha e resolveu colocar a mão
na massa. Junto ao amigo Daniel Starck (webmaster
de apenas 15 anos), ele criou o site Planeta Rádio
(www.planetaradio.cjb.net), uma completa central de
informações sobre programas e emissoras
de todo o país. Há menos de um ano no
ar, a página já conta com colaboradores
em diversas cidades brasileiras. Para breve, o time
de "radiomaníacos" promete fundar
uma estação virtual em rede.
A relação entre
emissoras e ouvintes é mais intensa do que
se pode imaginar. Muitas vezes, uma rádio acaba
se tornando sinônimo de estilo de vida. É
o caso da Estação Primeira, extinta
FM curitibana especializada em rock. Fora do ar desde
1995, a emissora ainda é motivo de culto.
O vendedor Sander José
de Souza, 31, pode ser considerado o "ouvinte
símbolo" da Estação Primeira.
Morava perto da rádio e constantemente visitava
as locutoras para saber informações
acerca das músicas executadas na programação.
Quando a 90.1 FM encerrou suas atividades, ele foi
um dos que fizeram piquete na frente do prédio
da rádio em sinal de protesto. "Cheguei
a posar lá por duas noites e até hoje
guardo o abaixo-assinado contra o fim da Estação",
conta.
E para quem duvida da paixão
de Sander pela finada emissora, há uma prova
indiscutível: ele tatuou no braço o
logotipo da rádio. "É o meu amuleto",
afirma. O desenho, feito em 1994, fez de Souza uma
figura conhecida no meio roqueiro curitibano. Há
até quem acredite que "o cara da tatoo
da Estação Primeira" seja apenas
mais uma lenda urbana. "Tem gente que vê
a tatuagem e pára para falar comigo, como se
eu fosse uma pessoa famosa", diz.
Normalmente, o gosto pelo rádio
é despertado ainda na infância e adolescência
dos ouvintes. Josete é aficionada por emissoras
populares desde pequena. Sander, por sua vez, aprendeu
a admirar os clássicos do rock em 1986, quando
tinha 15 anos e a Estação Primeira emitia
seus primeiros sinais.
Mas quem melhor explica a mania
pelas AMs e FMs é o jovem Cássio Silvério.
Aos 13 anos, ele se surpreendeu com as vinhetas e
locuções diferenciadas da Transamérica
de Foz de Iguaçu. Antes da chegada da rádio
à cidade, Silvério só conhecia
estações de programação
"brega" (como ele mesmo define). "A
culpa é do meu pai. Uma vez eu pedi para ele
uma bola e acabei ganhando o rádio. Viu no
que deu?", brinca o aspirante a radialista.
Dados
Número estimado de emissoras
de rádio no Brasil - 2500
Porcentagem de emissoras FM
- 75%
Porcentagem de lares brasileiros
com aparelho de rádio - 98%
Média de receptores
de rádio em cada casa brasileira - 3
Novas trincheiras
Sistema digital por satélite promete revolucionar
o meio e abrir espaços para profissionais
OMAR GODOY
"O campo de trabalho no rádio não
é grande, é enorme", afirma o jornalista
Jorge Cury, da agência de notícias Central
de Radiojornalismo. De acordo com ele, as inovações
tecnológicas certamente abrirão espaços
para profissionais da área. "Com a chegada
do rádio digital, a concessão de emissoras
será facilitada e os equipamentos custarão
bem menos. Vai faltar conteúdo".
Cury tem razão. Os Estados
Unidos já começam a introduzir o sistema
de satellite radio, que promete revolucionar o meio.
Além de apresentar qualidade de som igual a
dos CDs, a nova tecnolgia multiplicará o número
de sinais de transmissão, possibilitando o
surgimento de milhares de emissoras.
Atualmente, duas companhias
norte-americanas brigam por um mercado potecialmente
milionário: Sirus Satellite Radio e XM Sattelite
Radio. Ambas pretendem disponibilizar mais de 100
canais de música e informação,
a um custo mensal inicial de US$10. A venda desses
conteúdos será feita no esquema de assinatura,
a exemplo das emissoras de televisão a cabo.
Outros sistemas de rádio digital mais simplificados
estão sendo testados na Europa, Japão
e EUA. A Abert (Associação Brasileira
das Emissoras de Rádio e Televisão)
já começou os estudos para a implantação
da tecnologia no Brasil.
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