DEMOCRATIZAÇÃO DA
COMUNICAÇÃO
Avanços no controle social da mídia.
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Informação: Observatório da Imprensa
- 03/01/2006
Rogério Tomaz Jr. (*)
Enquanto escrevo este artigo, entra na quarta semana
de exibição o programa Direitos de Resposta.
A empreitada é o resultado de uma ação
judicial movida pelo Ministério Público
de São Paulo, em parceria com seis entidades
de direitos humanos, contra a Rede TV!, em razão
de recorrentes violações de direitos
cometidas no programa Tardes Quentes, do humorista
João Kléber.
O apresentador, demonstrando ignorar qualquer princípio
de respeito aos direitos humanos, declarou-se ferido
na sua liberdade de expressão artística.
O protesto é uma pequena amostra da idéia
geral defendida pelos donos e porta-vozes das grandes
empresas da mídia: a auto-regulamentação
irrestrita.
Exemplos de manifestações mais concretas
desta ideologia são o Conar (Código
Nacional de Auto-Regulamentação Publicitária)
uma "ação entre amigos",
como bem denotou o observador Alberto Dines
e a atitude raivosa e autoritária em relação
às propostas de criação do Conselho
Federal de Jornalismo (CFJ) e da Agência Nacional
do Audiovisual (ANCINAV), que continham elementos,
bastante comuns e eficazes em tantos outros países,
de controle público e social da mídia.
O "noticiário" a respeito desses
assuntos, em 2004 e 2005, explicitou de forma inequívoca
a estratégia dos (tu)barões da mídia:
sequer aceitam a possibilidade de debater amplamente,
no Congresso Nacional e/ou na sociedade, os detalhes
das propostas. Simplesmente puseram seus arsenais
midiáticos para rejeitá-las sumariamente,
inclusive através da desqualificação
grosseira dos defensores das mesmas, como se tratassem
de algo abjeto aos olhos e ouvidos de qualquer pessoa.
Protagonistas ativos
A idéia do controle público
feito em público e pelo público
e social da mídia não é nova
no Brasil. No entanto, é muito pouco conhecida
pela população em geral, insuficientemente
debatida no campo da comunicação e,
pior de tudo, raramente colocada em prática
pela sociedade organizada.
Em 2002 foi publicada no Brasil, pela Edusc, uma
obra bastante valiosa sobre o tema: O arsenal da democracia:
sistemas de responsabilização da mídia,
de autoria do professor francês Claude-Jean
Bertrand [leia aqui o prefácio do livro e aqui,
o primeiro capítulo]. O livro comenta sobre
mais de uma dezena de experiências do que Bertrand
denomina de "Media Accountability Systems"
(MAS), traduzido para o português como "Sistemas
de Responsabilização da Mídia".
Conselhos de imprensa e códigos de ética
jornalística de vários países,
publicações especializadas em crítica
de mídia, ombudsman/mediador/ouvidor, crítico
interno, pesquisas acadêmicas que visam contribuir
com o aperfeiçoamento da mídia, campanhas
e movimentos de "consumidores de mídia",
projetos inovadores, como o Project Censored, nos
EUA, entre muitos outros, são abordados pelo
autor e por diversos colaboradores.
A idéia central que justifica cada vez mais
a proliferação e o fortalecimento dos
MAS, segundo Bertrand que também escreveu
A deontologia das mídias, em 1999 é
a necessidade de livrar o processo de produção
e circulação de informação
e cultura das perigosas armadilhas do mercado da mídia
totalmente desregulamentado, por um lado, e do Estado,
sempre com tendência autoritária e centralizadora,
por outro.
Embora não faltem experiências
bem-sucedidas, inclusive para ilustrar este
agitado cenário de disputa relativa aos meios
de comunicação no Brasil, ainda temos
que avançar muitas posições para
que sejam obtidos ganhos concretos e para que a cultura
em relação a este segmento da vida social
seja efetivamente transformada.
De modo geral, fomos condicionados a não encarar
a comunicação como um patrimônio
público e/ou, muito menos, um direito humano.
No máximo, fala-se em "serviço",
termo que traz consigo a aura de "negócio".
Daí o primado da indústria da informação,
ou do "infotretenimento", sobre a concepção
do direito humano à comunicação.
Assistimos, literalmente, ao espetáculo de
segregação e estigmatização
de tudo aquilo e de todos aqueles que se posicionam
de forma contrária às idéias
principais do "pensamento único"
vigente, expressão cunhada por Ignacio Ramonet
para se referir ao dogmatismo avassalador do neoliberalismo.
Neste sentido, a vitória judicial obtida contra
a Rede TV! e seu apresentador/violador de direitos
humanos representa um marco histórico. Pela
primeira vez nas quase seis décadas de existência
da televisão brasileira, organizações
que representam setores notoriamente discriminados
pela chamada "grande mídia" foram
alçadas, nestes tempos de "esfera pública
midiatizada", à condição
de protagonistas ativas no exercício do seu
direito a expressar suas opiniões e posições
políticas a respeito dos mais variados assuntos.
Visão distorcida
Nas três primeiras semanas do Direitos de Resposta,
os quinze programas envolveram dezenas de entrevistados
e produções em vídeo de entidades
que provavelmente jamais teriam acesso a uma rede
de televisão em cadeia nacional. Entre os temas,
todos censurados ou abordados de forma superficial
ou distorcida pela mídia corporativa, figuram
diversidade sexual, questão racial, deficiência,
educação, concentração
da mídia e o direito à comunicação,
liberdade religiosa, direito à terra e à
moradia, discriminação contra a mulher
e outros.
Os instrumentos de controle social da mídia,
como a campanha "Quem financia a baixaria é
contra a cidadania" ou as redes de entidades
da sociedade, como a CRIS Brasil, saem fortalecidos
deste episódio. Ganharam pujança e visibilidade
e acumularam experiência para o prosseguimento
da batalha contra-hegemônica.
A veiculação do Direitos de Resposta
se encerra no dia 20 de janeiro, mas a disputa por
uma mídia democrática, que respeite
e promova a comunicação como direito
humano, seguirá sem data para terminar
porém com mais força e inspiração
a partir dessa conquista memorável. Um próximo
passo é superar a visão distorcida
por quem tem interesse nela de que controle
social é igual a censura. Ótimo desafio
para 2006.
(*) Jornalista da Ação Brasileira pela
Nutrição e Direitos Humanos e integrante
do Intervozes Coletivo Brasil de Comunicação
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