| A comunicação que permanece
Pedro J. Bondaczuk (*)
O ato de comunicar um pensamento, um sentimento, uma
idéia ou uma informação implica
em maiores dificuldades que um leigo pode imaginar.
A deficiência de comunicação tende
a provocar enormes contratempos, que não raro
descambam para conflitos entre as pessoas, gerando
antagonismos e brigas, na maioria das vezes evitáveis.
Isto é válido desde as relações
pessoais do dia-a-dia (no lar, no trabalho, no lazer
e na convivência social), até o relacionamento
entre povos. Por exemplo, muito marido indispõe-se
com a esposa por não saber lhe comunicar corretamente
uma emoção. Ou por não se fazer
entendido ao lhe prestar determinada informação
sobre os seus atos.
O mesmo acontece com pais, com filhos, com patrões,
com empregados, com amigos etc. Por outro lado, pelo
mesmo motivo, muita guerra tem sido deflagrada através
da História. A palavra é poderosa, quando
manejada com perícia. Contudo, pode tornar-se
uma faca de dois gumes se utilizada de maneira, digamos,
desastrada.
A tarefa da comunicação se complica
um pouco mais se é feita através da
escrita. Esta implica, a priori, no conhecimento da
grafia das palavras, das regras gramaticais, do significado
exato de cada termo e, para quem faz desse exercício
uma profissão, do estilo.
A principal virtude de um bom redator é a
clareza, seguida da concisão. É indispensável
que se faça entendido. Além disso, o
que escreve precisa ser interessante, tem que atrair
o leitor, e prender a sua atenção. Para
tanto, deve deixar a erudição para textos
voltados a um público específico, e
mesmo assim tomando as devidas cautelas para não
resvalar para o pedantismo.
Além desses cuidados técnicos, o comunicador
precisa atentar para o essencial: o que vai comunicar
e para quem. O que tem a dizer vai esclarecer os leitores,
ajudar a formar uma opinião, servir de acréscimo
ao seu acervo cultural, ou se trata, somente, de um
conjunto de lugares-comuns, de um rosário de
críticas inconseqüentes, ou de lamúrias
neuróticas, ou de obviedades dignas daquele
personagem do romance O Primo Basílio
de Eça de Queiroz, o Conselheiro Acácio?
Boa parte do que lemos nos jornais, revistas, sites,
blogs e até em livros bastante divulgados não
passa disso! Melhor seria, nesse caso, em especial
da mídia impressa, que se preservasse a árvore
que foi abatida para fornecer a matéria-prima
do papel onde o acervo de bobagens será estampado.
O comunicador, antes de tudo, é o que poderíamos
chamar, figurativamente, de fazedor de cabeças.
O texto, em geral, adquire maior credibilidade do
que a palavra oral. Além de tudo, permanece,
ao contrário daquilo que dizemos, que entra
por um ouvido, sai por outro, e em geral, acaba esquecido
minutos depois. Ou, quando é algo de fato relevante,
deixa uma ou outra informação gravada
na memória, de forma truncada, já que
muitos detalhes (alguns essenciais) se perdem.
Para que possamos fazer cabeças,
diz a lógica, é preciso que, antes,
tenhamos a nossa cabeça feita. O papel em branco
numa máquina de escrever (ou tela vazia do
monitor do microcomputador, hoje em dia o instrumento
por excelência do redator) é um desafio
aos que fazem desse ato de inteligência e comunicação
uma espécie de estilo de vida.
Para alguns, o texto flui naturalmente, claro, cristalino,
vigoroso, às vezes contundente, outras confortador,
mas sempre útil. Outros, no entanto, embaralham-se
ora com a grafia de determinadas palavras, ora com
a construção das frases, períodos,
parágrafos, capítulos etc.; ora com
a ausência de recursos vocabulares, ora com
regras da crase e de concordância verbal, ou
de grau, gênero e número.
Uns, têm idéias boas, fartas, vigorosas
e sabem como comunicá-las. Outros, querem,
somente, comunicar sua revolta, suas frustrações,
seus temores e sua perplexidade face à vida.
Estes últimos, quando conseguem se expressar,
muitas vezes elaboram textos que vão ter uma
influência perniciosa sobre os que se sentem
confusos, revoltados, frustrados e temerosos, como
eles. Na maioria das vezes, porém, suas mensagens
são fúteis.
Estas considerações vêm a propósito
de uma enxurrada de má literatura (e de mau
jornalismo) que circula por aí. Temos recebido
inúmeros trabalhos de candidatos a escritor,
que nos pedem para emitir a nossa opinião sobre
os seus livros. Muitos desses textos são de
inegável valor, exigindo, somente, um ou outro
retoque para que possam ser classificados de excelentes.
Alguns chegar a beirar a perfeição.
Alguns, todavia, se esquecem que a compreensão
é o objetivo principal, se não único,
da comunicação. Raciocinam de maneira
confusa, daí se expressarem, também,
sem clareza e sem precisão. Na ânsia
de mostrar erudição, que muitas vezes
sequer possuem, se tornam, literalmente, ininteligíveis.
Há os que confundem erotismo com pornografia
e resvalam para o absoluto mau gosto, mostrando que,
na verdade, não tinham nada a comunicar. Quanto
a alguns textos jornalísticos, que nos foram
encaminhados para apreciação (e outros
tantos que lemos na chamada grande imprensa
nacional e internacional), é difícil
deixar de dar razão ao dramaturgo irlandês
George Bernard Shaw (conhecido por suas tiradas mordazes),
quando constatou que os jornais, ao que parece,
são incapazes de distinguir um acidente de
bicicleta do colapso da civilização.
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